A educação sexual que a maioria das mulheres recebeu (quando recebeu) falava em gravidez. Eventualmente, abordava a AIDS. E parava por aí.
Ninguém explicou que a clamídia pode destruir as trompas silenciosamente, sem causar nenhum sintoma perceptível. Que o HPV é tão comum que a maioria das pessoas sexualmente ativas vai ter contato com ele em algum momento da vida. Que herpes genital pode ser transmitida mesmo sem ferida visível. Que gonorreia em mulheres frequentemente não dói, não coça, não aparece — e segue causando dano.
Essa lacuna não é acidental. É o resultado de uma cultura que trata a sexualidade feminina com silêncio, vergonha e julgamento — e que cobra o preço disso em saúde.
Este texto existe para preencher parte dessa lacuna. Sem moralismos, sem catastrofismo, com informação.
O que são ISTs e por que afetam mulheres de forma diferente
ISTs — infecções sexualmente transmissíveis — são causadas por vírus, bactérias ou parasitas transmitidos principalmente pelo contato sexual. O termo substituiu “DST” (doenças sexualmente transmissíveis) justamente porque muitas dessas infecções não causam doença aparente, mas seguem sendo transmitidas.
Em mulheres, as ISTs têm algumas particularidades importantes:
Maior vulnerabilidade biológica. A mucosa vaginal é mais extensa e permeável do que a pele do pênis, o que facilita a entrada de agentes infecciosos. A probabilidade de uma mulher contrair gonorreia ou clamídia em uma relação desprotegida com um parceiro infectado é maior do que o inverso.
Sintomas mais silenciosos. Enquanto homens frequentemente apresentam corrimento ou ardência ao urinar — sintomas que os levam ao médico —, mulheres com as mesmas infecções muitas vezes não sentem nada. Isso atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de complicações.
Consequências mais graves. ISTs não tratadas em mulheres podem levar à doença inflamatória pélvica (DIP), que afeta útero, trompas e ovários; à infertilidade; à gravidez ectópica; e, no caso do HPV, ao câncer de colo do útero.
As ISTs mais comuns em mulheres
Conhecer o próprio corpo e entender como cada IST em mulheres se manifesta é o primeiro passo para um autocuidado consciente, seguro e livre de tabus.
Clamídia: a mais silenciosa
A clamídia é a IST bacteriana mais comum no mundo. E em mulheres, até 70% dos casos não apresentam nenhum sintoma.
Quando aparecem, os sinais podem incluir corrimento amarelado, ardência ao urinar, dor pélvica leve ou sangramento fora do ciclo. Mas a ausência de sintomas é a regra — não a exceção.
Sem tratamento (que é simples: antibiótico), a clamídia pode ascender ao útero e às trompas, causando DIP e, em alguns casos, infertilidade por obstrução tubária. O diagnóstico é feito por exame de urina ou swab vaginal.
Gonorreia: presente e subestimada
A gonorreia também é frequentemente assintomática em mulheres. Quando causa sintomas, podem incluir corrimento esverdeado ou amarelado, dor ao urinar e dor pélvica.
Um ponto importante: cepas de gonorreia resistentes a antibióticos estão em crescimento global. Isso torna o diagnóstico precoce ainda mais relevante — quanto antes tratada, mais simples o esquema terapêutico.
HPV: o mais comum de todos
O HPV (vírus do papiloma humano) é tão prevalente que estima-se que cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas terão contato com algum subtipo ao longo da vida. A maioria das infecções é eliminada pelo próprio sistema imunológico sem causar nenhum problema.
O desafio está nos subtipos persistentes. Os chamados subtipos de alto risco — principalmente HPV 16 e 18 — estão associados ao desenvolvimento do câncer de colo do útero, além de outros cânceres menos comuns (vulva, vagina, ânus).
Os subtipos de baixo risco podem causar verrugas genitais (condilomas), que não viram câncer, mas causam desconforto e têm tratamento.
O HPV não tem cura, mas tem prevenção. A vacina contra o HPV é altamente eficaz e está disponível no SUS para meninas e mulheres de 9 a 45 anos. O Papanicolau segue sendo essencial para detectar alterações precoces no colo do útero antes que se tornem câncer.
Herpes genital: mais comum do que parece
O herpes genital é causado pelo vírus HSV-2 (e, com frequência crescente, pelo HSV-1, o mesmo do herpes labial). Depois da infecção inicial, o vírus permanece no organismo para sempre — mas a maioria das pessoas tem episódios raros ou assintomáticos.
O grande equívoco sobre herpes é achar que a transmissão só ocorre quando há feridas visíveis. Não é verdade. O vírus pode ser transmitido mesmo sem lesões aparentes, por um fenômeno chamado liberação viral assintomática.
Isso explica por que muitas pessoas descobrem o herpes sem conseguir identificar quando ou com quem foram infectadas — e por que tanto estigma em torno do diagnóstico é injusto e desinformado.
Não há cura, mas há tratamento que reduz a frequência e a intensidade dos episódios e diminui o risco de transmissão.
Sífilis: o retorno de uma antiga conhecida
A sífilis estava praticamente controlada em décadas anteriores, mas voltou a crescer de forma preocupante no Brasil e no mundo. Em mulheres grávidas, é especialmente grave: a sífilis congênita — transmitida ao bebê durante a gestação — pode causar malformações, morte fetal e outros danos sérios.
A sífilis evolui em fases. Na fase primária, causa uma úlcera indolor (cancro duro) que some sozinha — e pode passar despercebida. Nas fases seguintes, os sintomas se tornam mais sistêmicos. O diagnóstico é feito por exame de sangue (VDRL) e o tratamento com penicilina é eficaz.
HIV: o estigma que ainda mata
O HIV (vírus da imunodeficiência humana) ainda carrega um dos maiores estigmas da medicina — e esse estigma tem consequências diretas na saúde das mulheres.
Durante décadas, a AIDS foi retratada como uma doença de grupos específicos: homens homossexuais, usuários de drogas injetáveis. Essa narrativa deixou milhões de mulheres fora do imaginário de risco — e ainda deixa. Hoje, mulheres heterossexuais, muitas em relacionamentos estáveis e de longa data, são o grupo que mais cresce em novos casos de HIV no Brasil.
Como isso acontece? Porque o risco não depende de identidade ou de estilo de vida, mas de exposição. E a biologia feminina, mais uma vez, coloca a mulher em posição de maior vulnerabilidade: a transmissão de homem para mulher é significativamente mais eficiente do que o caminho inverso, pela extensão e permeabilidade da mucosa vaginal.
Após a infecção, o HIV pode ficar silencioso por anos. A única forma de saber é testando. E o teste é simples, rápido, gratuito no SUS — e ainda cercado de uma barreira invisível chamada medo do resultado e do julgamento.
Hoje, HIV não é sentença de morte. Com tratamento antirretroviral (TARV), pessoas vivendo com HIV têm expectativa de vida próxima à da população geral e, quando a carga viral está indetectável, não transmitem o vírus sexualmente. Indetectável = intransmissível: esse é um dado científico consolidado que ainda não chegou onde deveria.
Tricomoníase: a mais esquecida
Causada por um parasita, a tricomoníase é uma das ISTs mais comuns e das menos faladas. Em mulheres, pode causar corrimento amarelo-esverdeado com odor forte, coceira e ardência. Em homens, frequentemente é assintomática — o que facilita a transmissão sem que o parceiro saiba que está infectado.
O tratamento é simples (metronidazol), mas tanto a mulher quanto o parceiro precisam ser tratados simultaneamente para evitar reinfecção.
Prevenção: o que funciona de verdade
- Preservativo: masculino ou feminino, é o único método contraceptivo que protege contra ISTs. Reduz significativamente o risco de transmissão, mas não elimina completamente para infecções transmitidas por contato pele a pele, como herpes e HPV.
- Vacinação contra HPV: altamente recomendada, idealmente antes do início da vida sexual, mas com benefício também para quem já é sexualmente ativa.
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): medicamento para pessoas com alto risco de exposição ao HIV. Disponível gratuitamente no SUS para quem se enquadra nos critérios.
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição): deve ser iniciada em até 72 horas após uma exposição de risco ao HIV. Disponível nas UPAs, prontos-socorros e serviços de saúde especializados.
- Testagem regular: para quem tem vida sexual ativa, fazer exames periódicos para ISTs faz parte do autocuidado, independentemente de ter sintomas ou de estar em relacionamento estável. Muitas ISTs são assintomáticas e só o exame identifica.
Com que frequência fazer exames para ISTs?
Não existe uma resposta única, dependendo do seu histórico, do número de parceiros, do uso de preservativo e de fatores de risco individuais. Como referência geral:
- Anualmente: para mulheres sexualmente ativas, mesmo sem sintomas, incluindo sorologia para HIV, sífilis, hepatites B e C
- A cada 3 a 6 meses: para quem tem múltiplos parceiros ou relações sem preservativo
- No pré-natal: obrigatório para HIV, sífilis, hepatite B e toxoplasmose
Converse com um ginecologista sobre a frequência ideal para o seu caso.
Sobre o estigma (porque ele também faz parte do problema)
Uma das maiores barreiras para o diagnóstico e tratamento de ISTs não é técnica. É o julgamento.
Mulheres que chegam ao serviço de saúde com uma IST frequentemente relatam perguntas invasivas sobre seus comportamentos, olhares de reprovação, atendimento descuidado. Esse estigma afasta as pessoas do cuidado — e é um problema de saúde pública.
Ter uma IST não diz nada sobre o caráter de uma pessoa. Diz que ela é humana e sexualmente ativa — como a maioria da população adulta.
O cuidado com a saúde sexual é um direito. E exercer esse direito começa por buscar informação sem vergonha e atendimento sem julgamento.
Para terminar
O que a escola não te contou, você pode aprender agora. E pode compartilhar com quem você ama.
Falar sobre ISTs não é assunto de promiscuidade — é assunto de saúde. Quanto mais naturalizamos essa conversa, mais cedo as infecções são diagnosticadas, mais simples é o tratamento e menores são as consequências.
Se você nunca fez exames para ISTs, esse pode ser um bom momento para conversar sobre isso na sua próxima consulta. Sem drama, sem julgamento — só cuidado.
Tem dúvidas sobre exames ou formas de se prevenir contra IST em mulheres? No meu Instagram (@dr.rodrigoferrarese) respondo todos os dias diversas perguntas enviadas por vocês =)
Um beijo,
Dr. Rodrigo Ferrarese
Ginecologista e obstetra
CRMSP 149403 | RQE 70017